domingo, 13 de março de 2011

Por que "A casca da Cigarra"? - Senta que lá vem história...



A cena é uma das primeiras de que me lembro, vem lá de algum ano na década de setenta: o menino de uns sete anos chora enquanto outros três, mais velhos, riem. O choro vem por conta de uma casca de cigarra jogada dentro da blusa do menino menor que esperneia e puxa as roupas apavorado, tentando se livrar do “bicho”. Eu devo ter também seis anos e assisto a certa distância, quando sou chamada pelos meninos maiores que mostram ao pequeno que eu, apesar de ser uma menina, não sou chorona ou medrosa pois uso várias cascas de cigarra presas na blusa, como broches. Entendo que meus “broches” inspiraram a brincadeira de mau gosto e fico com pena do piazinho, mas não falo nada e no fundo me encho de vaidade por ter sido reconhecida no mundo dos meninos.
As cascas de cigarra eram os adereços favoritos que eu e minhas irmãs aprendemos a usar, na falta de broches e presilhas de verdade...assim como aprendemos a abrir as sementes de caqui para nelas encontrarmos colheres e garfinhos que usávamos para brincar de casinha, ou a colar com água as pétalas de gerânio nas pontas dos dedos para fingir unhas longas e vermelhas.
Mais velha descobri na cigarra o símbolo da alegria despreocupada, em contraponto à secura e seriedade da trabalhadora formiga. Simpatizava mais com a formiga e tentei ser uma, até ser dispensada do meu emprego de anos em um formigueiro que já estava pequeno para mim.Então reencontrei minha cigarra, na música que Amália Rodrigues - e depois Adriana partimpim - cantam: "Minuciosa formiga, não tem o que se lhe diga: leva sua palhinha de asinha a asinha. Assim devera eu ser - se não fôra não querer".
Ao criar o blog e batizá-lo de A Casca da Cigarra não pensei exatamente em nada disso, mas no haikai do Bashô que conta da cigarra que se entrega por completo a fazer o que gosta, até se esgotar, sem medo nem economia. Pensei que o blog não revelaria tudo que sou, só a parte mais externa, as pequenas invenções que faço para enfeitar a vida. Pensei também que a casca da cigarra é símbolo de um ser que tenta se expandir deixando para trás uma parte importante do que foi – um vestígio, uma casca.
Hoje, tento entender - com o Freud, o Lacan e a Luiza- que sou uma mulher e tenho pele, não casca, que posso me expandir sem arrebentar, que posso me entregar sem me esgotar, que posso ser a “Formigarra” ou a “Cigamiga”, trabalhando e cantando com a mesma entrega.
O blog fez um ano, cem seguidores, muitos amigos e tenho só a agradecer a quem com paciência me escuta a estridência

Imagem: http://discontosdefadas.blogspot.com/2009/05/muitos-anos-depois-eu-percebo.html

18 comentários:

  1. Déia,
    Que lindo texto! Amei o seu tom poético ao falar sobre o título do Blog.
    É sempre muito prazeroso acompanhar suas artes e textos.
    Um ótimo domingo!
    Beijos,
    Vanessa

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  2. Cheguei aqui através da postagem da Helena e fiquei muito satisfeita com o que vi, tudo o que faz para enfeitar a vida e deixá-la mais bela, graciosa e criativa.
    Estou numa fase de descobrimento e avaliação da minha entrega e percebi que e posso me entregar sem me arrebentar, sem me esgotar, tentando me desligar do profissional para tentar curtir uma pouco mais a vida, minha familia e eu.
    Voltarei aqui com certa frquência.

    abraços e bom domingo.

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  3. Que texto! Como é interessante encontrarmos essas identidades diversas dentro da gente, né? Pra mim, ariana que sou, foi um alívio descobrir que podemos mudar e desmudar de uma hora pra outra.
    Fico aqui imaginando vc, cheia de "brochinhos" pela roupa. Que menina corajosa!
    Beijos
    Helena

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  4. Amei esse texto! Que auto-retrato mais bacana... Eu comecei a acompanhar o seu blog quando dos preparativos para o aniversário do Benjamim. Desde então, sempre volto aqui.
    Um abraço,
    Andréa.

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  5. Vanessa, Helena, Karina, Andréa obrigada por passarem aqui e deixarem estes comentários tão gentis! Um domingo ótimo e uma semana maravilhosa para vocês!

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  6. ah que lindo seu post Deia. A vida é boa sempre. Reconheci as fotos do benjamim no parquinho do solar que eu brinquei TANTO. QUe saudades...e pensar que a gente esteve sempre tao pertinho neh?
    beijo

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  7. Andréa, parabéns pelo post. Lindo, sutil, singelo, quase diáfano... mais prá asa que prá casca, igualmente bonito e útil. Bjs, bjs! Que venham muitos anos mais, muito mais seguidores e muito mais beleza nesse nosso mundinho tão precisado, não é?

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  8. História bonita =D

    enfim, parabéns pelo blog!

    beijos, até!

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  9. Boa madrugada, se é que tbém estás acordada. Semana passada, em Poços de Caldas, também na madrugada descobri teu blog e me perguntei pq o nome.Legal, hoje tenho a resposta. Achei muito joia o que falas, escreves, e o que nos ensina. Abraço da fã Tânia- De Pato Pra Ganso,

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  10. Adorei esse "porque" do nome......Essa história tem uma relação forte na vida das arteiras. É arteira tentando ser um pouco mais formiga e arteira tentando não perder a cigarra que já existe dentro de cada uma, na verdade é o tal equilibrio que necessitamos nesse mundinho tão maravilhoso e também tão complicado em que vivemos....A sua história põe a gente para refletir e te admirar,,,Adorei!

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  11. Oi!! nem lembro como cheguei ao blog... sei que foi atraves de outro blog, mas me lembro que o que mais me chamou atenção foi o nome e na hora lembrei do já furado cd da Adriana partimpim da minha filha...
    adoro suas divagações e o modo como chama seu marido e seu filho...kkkk
    bjsss

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  12. Oi querida Déia,
    Adorei o tom poético do texto, parabens pelo dom da palavra, lindo!!!
    Seus quadrinhos de bastidores, ficaram muito fofos!!
    Mudando de assunto, ri muito com seu comentário sobre o scissor fob no Banana Craft, ganhei o dia!!!rsrsrsr
    Bejinhos,
    jud-artes.

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  13. Que texto tocante e belissímo! Meu mundo é muito mais bonito e habitável desde que você chegou! Obrigada por partilhar conosco esse universo de boas vibrações!

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  14. Déia,
    Gostei muito de saber a origem do título de seu blog, através deste texto tão terno.
    Parece que você estava advinhando uma das minhas curiosidades, enquanto eu me perguntava se não entendia a razão por ignorância ou por falta de obviedade (o caso em si). Aliás, não poderia ser diferente, já que percebo carinho e originalidade em suas artes. Um beijo, Karina.

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  15. Lindo!!! Amei, amei, amei o texto. Beijos. Re

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  16. Oie!
    Gostei muito do post e hoje conheci seu blog. :)
    Gosto muuuito das cigarras. Também brincava com as casquinhas delas quando criança e hoje ensino meu filho a brincar, amar e respeitar todos os animais. Gosto muito quando chega a época do canto das cigarras.

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  17. Ai que lindo! Adorei, como essa menina escreve bem, né gente?! E que história mais doida de vida!

    Euzinha, como fui criada aqui em SP, talvez tenha perdido oportunidades de ter histórias assim para contar, mas quando dá eu fujo pro mato pra escrever minha história no meu novo tempo!

    Viva as lembranças e a infância! Momento mágico...Talvez tenha escolhido costurar para não perder a criatividade e eternizar enquanto dure as minhas lembranças concretas feitas de tecido, fios e aviamentos.

    Bjinho

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